segunda-feira, 16 de julho de 2012

Guest Post by Daniela Araújo; O MAR À CIDADE

Imagine que lhe propõem ir fazer férias para uma cidade que tem uma praia com um areal tão extenso que precisa de percorrer mais de um quilómetro até chegar à beira de água, mas onde dificilmente conseguirá tomar banho devido à rebentação. Imagine que há, nas imediações da primeira, mais duas praias que pode utilizar. Uma, onde terá dificuldade em estender a toalha de banho, pois as ondas chegam bem perto do lugar onde deixou o seu carro estacionado, fica mesmo ali ao lado. Na outra, mais distante, pode tomar banho mas, se quiser fazer surf, aproveite que estão a matar as ondas. Não vai, pois não? Bem vindo à Figueira da Foz, a minha cidade.
A geração dos anos 70 cresceu com uma praia já suficientemente extensa, mas onde ainda se conseguia ir a banhos e com a memória, repetida pelos pais e avós, de uma cidade voltada para o mar que acolhia turistas nacionais e estrangeiros encantados com as areias e as águas da Praia da Claridade e, certamente, com a natureza exuberante da Serra da Boa Viagem.
Da Serra da Boa Viagem, desgastada pelos muitos incêndios e por atuações vergonhosas de sucessivos executivos camarários que, permitindo construções nas encostas, conduziram à sua descaracterização, falarei numa outra ocasião.
Figueira da Foz, Buarcos e Cabedelo. Três praias que, por razões diversas, terão poucas possibilidades de voltar a ser os bilhetes postais desta cidade se, nas soluções do futuro, se repetirem as asneiras do passado.
Todos os dias, pelas 7h30 da manhã, percorro parte da Avenida 25 de abril e, todos os dias, olho para um areal salpicado de equipamentos desportivos que, como refere o Miguel Figueira, vencedor do Movimento Milenium com o projeto Cidade Surf, deveriam ter sido colocados no lugar certo, o parque das Abadias. Só foram instalados na praia para encher uma vastidão difícil de preencher.
O mar vê-se ao longe mas, baixando os olhos, mesmo ali junto ao passeio, estão as tampas do sistema de esgotos para nos darem as boas vindas ao areal. São a antecâmara de uma praia que perdeu a alma. 
Os postais dos anos 40, 50 e 60 mostram uma praia repleta de veraneantes com as águas, calmas, muito mais próximas da Torre do Relógio e da Esplanada. Então, podia-se ir a banhos e não era preciso pertencer aos Navy Seals para conseguir entrar, nadar e voltar a sair do mar. Se a ideia é fazer com que a praia da Figueira da Foz seja um elemento central na oferta turística desta cidade, os caminhos traçados não têm sido os mais inteligentes.
E não basta recuar às décadas de 40, 50 e 60 para perceber a importância da cidade como estância turística. No último quartel do século XIX, como bem atestam as fotografias que o Jorge Dias tem vindo a recolher, a Figueira da Foz tinha uma enorme relevância marítima e fluvial.
A acumulação de areias na praia da Figueira, provocada pelo prolongamento do molhe norte do rio Mondego tem, no Cabedelo, o efeito contrário: o recuo da praia e o fim das ondas que possibilitam a prática do surf.
O Movimento SOSCabedelo tem vindo a sensibilizar a opinião pública para o impacto da deriva das areias na praia do Cabedelo que resultará no fim das ondas que atraem os surfistas à Figueira da Foz e colocará a cidade fora do circuito mundial do surf. Nem é preciso falar das perdas em termos de receitas para os operadores turísticos da região se tal vier a suceder.
A solução poderá passar pela colocação de um Bypass sob o Mondego que permitiria levar a areia de Norte, onde se acumula em excesso, para o sul, onde vai escasseando.
E depois há Buarcos. E os pescadores. E o riquíssimo capital cultural que aquela comunidade armazena e que tem sido incompreensivelmente negligenciado pelo poder local. Com a construção dos paredões de cimento paralelos à costa, com 150 metros, proposta do Plano de Ordenamento da Orla Costeira (POOC), haverá, inevitavelmente, acumulação de areias na zona e as rochas irão ficar soterradas. As mesmas rochas que servem de habitat para muitas espécies cuja apanha constitui, ainda, modo de vida para as gentes de Buarcos.
Nessa fronteira, que é a orla costeira, onde a terra e o mar se encontram, nessa fronteira fluida, feita de recuos e de avanços, exercitam-se práticas ancestrais, gerem-se saberes, adquirem-se competências, rompem-se os limites da legalidade e reproduz-se, ativamente, a herança cultural de uma comunidade. E só faz sentido olhar para esta fronteira de forma integrada, considerando-se que, para além das areias e dos turistas, a solução passa, sobretudo, por escutar os de cá. A começar pelos que vivem do mar e que atravessam essa fronteira diariamente.

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